Pular para o conteúdo
No ar
13:01 às 17:56 TESTE com Logica
Tocando agora LogicaMaster ao vivo
Fale no WhatsApp

Campina Grande, 162 anos: mais de um século depois, cidade deve retomar transporte sobre trilhos

VLT de Campina Grande em obras, em 2026. Instituto Histórico de campina Grande Os trilhos voltaram a fazer parte dos planos de transporte de Campina Grande, cidade no Agreste da Paraíba que celebra 162 anos neste domingo (11), mais de um século depois da chegada do primeiro trem à cidade, em 1907. O projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Campina Grande prevê 14,8 km de extensão e 13 estações, em um percurso que inclui pontos como o Complexo Aluízio Campos, Açude Velho e áreas


VLT de Campina Grande em obras, em 2026. Instituto Histórico de campina Grande Os trilhos voltaram a fazer parte dos planos de transporte de Campina Grande, cidade no Agreste da Paraíba que celebra 162 anos neste domingo (11), mais de um século depois da chegada do primeiro trem à cidade, em 1907. O projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Campina Grande prevê 14,8 km de extensão e 13 estações, em um percurso que inclui pontos como o Complexo Aluízio Campos, Açude Velho e áreas próximas à universidade públicas. Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp A proposta atual, porém, tem uma função diferente daquela exercida pela antiga ferrovia. No início do século XX, os trilhos ajudaram a mudar o comércio e a posição econômica de Campina Grande. O trem de carga continuou em atividade na cidade até o início dos anos 2000 e, depois disso, a malha ferroviária entrou em processo de sucateamento. Agora, o transporte sobre trilhos é pensado novamente para os deslocamentos dentro do próprio município. Agora no g1 Para entender a importância da ferrovia para a formação da segunda maior cidade da Paraíba e as diferenças entre o antigo trem e o projeto do VLT, o g1 conversou com os historiadores Erik Brito e Jefter Porto. Quando o trem chegou a Campina Grande A ferrovia chegou a Campina Grande em 1907, em um período de valorização do algodão no mercado internacional. Até então, segundo o historiador Erik Brito, o município ainda não figurava entre as principais cidades da Paraíba. A chegada dos trilhos mudou a rota de transporte da produção do interior e aproximou Campina Grande dos mercados ligados ao porto do Recife, em Pernambuco. Locomotiva com fardos de algodão no pátio da Estação Velha em 1949, em Campina Grande. Foto raríssima do acervo do Instituto Histórico de campina Grande Instituto Histórico de campina Grande Na época, os tropeiros (pessoas que transportavam mercadorias em tropas de animais) percorriam caminhos entre os sertões e o litoral para levar a produção do interior. Com a ferrovia, o algodão passou a ser levado até Campina Grande, onde era comercializado e beneficiado antes de seguir para o Recife e ser exportado. A chegada da malha ferroviária foi um divisor de águas para o desenvolvimento de Campina Grande. Antes de 1907, o município sequer figurava entre as potências da Paraíba. Esse evento coincidiu com a valorização do preço do algodão no mercado internacional. A ponta de trilho simbolizou o fim da necessidade dos tropeiros precisarem se deslocar dos sertões para o porto do Recife, encurtando o trajeto em quilômetros e transformando a Rainha da Borborema no principal mercado de venda e beneficiamento do algodão, fomentando uma pujança nunca antes vista na região, explicou Erik Brito. O historiador Jefter Porto acrescenta que a principal finalidade da ferrovia era transportar cargas. A procura internacional por algodão crescia em meio a mudanças na produção e no consumo, ocasionada por episódios como a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, até então o maior produtor mundial do produto, e o aumento da população e a expansão industrial no início do século XX. Embora o transporte de cargas fosse a prioridade, o trem também levava passageiros e correspondências. O chamado Trem do Recife, por exemplo, transportava jovens da elite campinense que viajavam para estudar Direito na capital pernambucana, segundo Jefter. A lógica que trouxe os trilhos foi a da carga. No final da sua vida, a linha férrea passou a ser só para cargas. Mas, durante o auge, transportava passageiros e mercadorias. O beneficiamento e a distribuição do algodão, somados à condição de ponta de trilho e à localização, tornaram Campina um dos principais empórios do produto no país. Masgente também viajava. O chamado 'Trem do Recife' levava, por exemplo, jovens da elite campinense para estudar Direito na capital pernambucana, explicou Jefter Porto. Multidão, ameaça de cangaceiro e atraso marcaram primeira viagem do trem Multidão aguardando chegada do primeiro trem, em Campina Grande. Instituto Histórico de campina Grande Cerca de 4 mil pessoas aguardavam a chegada do trem à Estação Velha de Campina Grande em 2 de outubro de 1907. Segundo o historiador Jefter Porto, a locomotiva nº 3, da companhia inglesa Great Western, chegou enfeitada com folhas de palmeira e duas bandeiras do Brasil. A recepção teve bandas de música, girândolas e a presença de lideranças locais. Euforia completa. A estimativa é de que 4 mil pessoas esperavam a chegada da máquina número 3 da Great Western. Ela chegou enfeitada com folhas de palmeira e duas bandeiras do Brasil na frente. Além da curiosidade, pois muitos nunca tinham visto o trem, com relatos até de pessoas que tiveram medo do barulho, contou Jefter. A expectativa pela ferrovia, no entanto, não começou naquele dia. De acordo com Jefter Porto, a chegada do trem era defendida pela elite comercial e política de Campina Grande desde a década de 1870. O historiador cita o deputado Irineu Joffily, que defendia pela instalação da linha, e o então prefeito Cristiano Lauritzen, seu adversário político. Apesar das divergências, os dois concordavam sobre a importância de levar o trem à cidade. A primeira viagem nutriu várias expectativas e sonhos em Campina Grande. O trem era bastante desejado pela elite comercial e política da cidade, desde a década de 1870, o Irineu Joffily já intercedia em favor do trem para a cidade. Apesar de inimigos políticos, Lauritzen e Joffily concordavam nesse ponto. Havia uma simbologia muito grande para a época, o trem para uma cidade do interior era a esperança de conexões e de expansão das redes de comércio, era o símbolo de uma cidade tida como moderna, explicou o historiador. A espera também ficou registrada em fotografia. O historiador Erik Brito destaca a imagem dos passageiros reunidos na Estação Velha enquanto aguardavam a chegada da composição (Veja a foto acima). Para nossa sorte ainda foi possível registrar uma foto do dia com os passageiros aguardando o trem na Estação Velha, disse Erik. No entanto, a recepção em Campina Grande contrastou com os problemas enfrentados durante a viagem. Segundo Jefter, havia rumores de que o cangaceiro Antônio Silvino e seu bando poderiam atacar a composição, mas a ameaça não se concretizou. O principal problema, de fato, foi o risco de superaquecimento da locomotiva, que precisava parar periodicamente para receber água. Em um trecho inclinado de Galante, a máquina também avançava devagar. Estação Velha na década de 1940, em Campina Grande. Institudo Histórico de Campina Grande O medo das ameaças de Antônio Silvino, que havia falado em virar o trem, que não acabou se concretizando. O grande problema era o superaquecimento da máquina que, periodicamente, tinha que parar para ser reabastecida com água. Além disso, havia o trecho de Galante que gerava receio nos passageiros da viagem inaugural, por ser um trecho inclinado, a máquina ia bastante lenta, relatou Jefter Porto. O historiador também recupera o relato de um jornalista enviado para cobrir a inauguração da linha. Segundo Jefter, o relato aponta que o trem saiu de Itabaiana às 15h20, já com 40 minutos de atraso, e chegou a Campina Grande por volta das 20h30. O repórter descreveu a viagem de forma negativa, criticando a falta de conforto e luxo e classificando a locomotiva como pequena e velha. Conforme o relato, a chegada ocorreu com três horas de atraso. Com 3 horas de atraso, o trem tão aguardado chega em Campina Grande. Apesar das expectativas locais, o jornalista do Diário de Pernambuco, mandado para cobrir a abertura da linha férrea, odiou a viagem e descreveu negativamente. Mas em Campina ninguém ligava pra isso, a euforia foi gigante, contou. Trem impulsionou o comércio e a vida cotidiana Estação Velha no ano de 1909, em Campina Grande Instituto Histórico de campina Grande Depois de passar a fazer parte da rotina de Campina Grande, o trem ajudou a ampliar a circulação de mercadorias pela cidade. Com a possibilidade de transportar produtos em maior quantidade, o comércio ganhou espaço e, segundo o historiador Erik Brito, o aumento desse movimento também fez mais dinheiro circular no município. Esse crescimento contribuiu para a formação de uma burguesia regional, que passou a buscar novos serviços e espaços de convivência. De acordo com o historiador, foi nesse contexto que surgiram locais como o Cassino Eldorado e, posteriormente, o Cinema Capitólio, com serviços que antes só eram encontrados nas capitais. Com o grande fluxo de mercadoria, também veio um grande fluxo de dinheiro, formando uma burguesia regional. Essa elite demandava de serviços requintados o que fomentou o surgimento de espaços como o Cassino Eldorado e, posteriormente, o Cinema Capitólio, serviços que antes só eram encontrados nas capitais, afirmou. Esses espaços passaram a fazer parte da vida social e política da cidade. Segundo Erik Brito, as oligarquias da região se reuniam nesses locais para tomar decisões políticas e acompanhar as novidades que circulavam nas grandes cidades do mundo. Por que o trem perdeu espaço em Campina Grande A ferrovia que durante décadas transportou mercadorias e passageiros por Campina Grande perdeu espaço ao longo do século XX. Segundo o historiador Erik Brito, essa mudança ocorreu em diferentes partes do Brasil, em um período em que as políticas de desenvolvimento passaram a priorizar o transporte rodoviário e a expansão das estradas. Não só em Campina Grande, mas em todo o Brasil, o transporte ferroviário começou a perder força em meados do século XX por conta das políticas desenvolvimentistas que consideravam o trem como uma tecnologia ultrapassada. A revolução automobilística estadunidense teve muita força nesse sentido, disseminando a ideia que o futuro eram os carros. Dessa forma, a malha ferroviária brasileira entrou em um período de inércia enquanto as estradas começaram a ser abertas em larga escala em todo o país, explicou o historiador. Em Campina Grande, o trem de carga continuou em atividade até o início dos anos 2000. Depois, uma linha ainda foi mantida pelo projeto municipal "Trem do Forró", que fazia o percurso até o distrito de Galante durante o período junino. De acordo com Erik, porém, a falta de manutenção tornou o trajeto inviável e contribuiu para o sucateamento da malha ferroviária. Com a interrupção dessas atividades, as antigas estruturas ligadas ao transporte sobre trilhos também passaram por um processo de deterioração. Parte dessa história, no entanto, permanece na paisagem e na memória da cidade. Sem manutenção, esse percurso passou a se tornar inviável, fazendo com que a malha entrasse em processo de sucateamento. As estações também entraram em processo de deterioração. Hoje, o trem não passa de uma lembrança distante de uma geração que ainda o viu em circulação, reservado apenas aos livros de história, ao Museu do Algodão, e duas instalações semi abandonadas, muito distante da representatividade que elas tiveram no século passado, disse Erik. Uma das construções que preservam a memória da antiga ferrovia em Campina Grande é a Estação Velha, onde funciona o Museu do Algodão. O espaço reúne objetos, documentos, fotografias e equipamentos relacionados à história da cultura algodoeira e ao desenvolvimento da cidade. Estação Ferroviária de Campina Grande atualmente. Reprodução / TCE-PB O que estudo prevê para o VLT de Campina Grande O projeto do VLT de Campina Grande prevê 14,8 quilômetros de extensão, 13 estações e quatro locomotivas. O sistema foi planejado para atender diferentes áreas do município, incluindo pontos de interesse como o Complexo Aluízio Campos, o Estádio Amigão, o Açude Velho, a Avenida Floriano Peixoto e áreas próximas à Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). VLT de Campina Grande em obras, em 2026. Instituto Histórico de campina Grande As características previstas foram definidas em um Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental realizado pela Prefeitura de Campina Grande, por meio das secretarias de Obras, Planejamento e Assistência Social. O estudo estabeleceu os seguintes parâmetros para o projeto: Extensão: 14,8 quilômetros de via permanente, ou seja, dos trilhos destinados à circulação dos trens; Estações: 13; Frota prevista: quatro locomotivas; Intervalo entre os trens: 17 minutos nos horários de pico. Esse intervalo é chamado de headway; Capacidade por hora: 2.109 passageiros por sentido a cada hora; Capacidade diária de referência: 48.408 passageiros. A quantidade diária de passageiros foi estimada com base em diferentes percentuais de ocupação dos lugares ofertados pelo sistema. O estudo considerou três cenários: 60% de ocupação: estimativa de 29 mil passageiros por dia; 40% de ocupação: estimativa de 19,3 mil passageiros por dia; 30% de ocupação: estimativa de 14,5 mil passageiros por dia. Em nota, a Secretaria de Planejamento afirmou que esses números são projeções do estudo de viabilidade, e não registros de passageiros transportados. A quantidade efetiva dependerá da demanda e das condições de funcionamento do sistema. O levantamento também considerou a população que vive a até um quilômetro das estações previstas. Segundo o material da Seplan, esse público foi estimado em 47.8192 pessoas, com base nos dados populacionais de 2010. A previsão divulgada pela Prefeitura de Campina Grande é de que as obras de infraestrutura do VLT sejam concluídas no segundo semestre de 2027. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba

Fonte: g1.globo.com

Compartilhar